sábado, 15 de setembro de 2018

Desabafo III

Eu queria escrever sobre tanta coisa
Eu queria falar tantas coisas pra tanta gente
Despejar todas as minhas frustrações, dizer o quanto fui magoada
O quanto tantos sonhos me foram tirados, o quanto me feriram e me fizeram sangrar
Apontar meu dedo cheio de enganos na cara de tanta gente e gritar bem alto sobre tudo aquilo que já tirou minha paz, meu sono, minha sanidade, meu amor próprio, minha auto estima, minha beleza, meu chão
Sentar cada um, numa cadeira fria e incômoda, amordaçando-lhes o direito de réplica, prendendo-lhes as mãos cheias de certezas, fazendo-os apenas ouvir e ver e sentir
E gritar e gritar e gritar e gritar
Eu preciso gritar
Preciso que ouçam tudo que está ecoando dentro de mim, há tempos
Isso não pode mais ficar apenas ressoando no meu peito, não é justo
Eu não quero mais ser complacente
Não preciso e não quero mais ser gentil
Eu quero que saibam que dói, que machuca, que fere
Que a gente urra de tanto sofrer, que o peito aperta, o ar some, as mãos esfriam, o coração gela
Eu preciso que sintam todo o vazio que isso tudo causa
Eu quero que se afoguem em todas as lágrimas que me fizeram derramar
Que carreguem uma parte dessa cruz que não é só minha
Me jogaram nas costas me fazendo percorrer por caminhos que eu  não escolhi
E agora sigo, pesada, cansada, desprotegida
Queria a chance de fazer com que cada um sentisse uma pontada de toda essa dor
Pelo menos que, ao sentir a fisgada, lembrassem-se de mim
Do meu nome
Do meu rosto
Do meu sorriso
Do meu choro

Mas nada disso vai acontecer. Eu sei que não.
Eu vou dormir e tudo permanecerá igual
Vazio e triste.
Com medo
E dor.

                                                                                                   Nana.

Você Devia Saber


Quero que você saiba
Que estou feliz por vocês
Não desejo nada além
Do melhor para vocês dois
Uma versão mais velha de mim, mas
Ela é pervertida como eu?
Ela te faria um boquete no cinema?
Ela fala eloqüentemente?
E ela teria um filho com você?
Tenho certeza que ela seria uma mãe excelente!
Pois o amor que você me deu e que
Nós construímos não foi capaz de fazer
Você se abrir totalmente, não
E toda vez que você diz o nome dela
Ela sabe que você dizia que ficaria comigo
Até morrer, até morrer?
Mas você ainda está vivo
E estou aqui para te lembrar
Da bagunça que você deixou quando foi embora
Não é justo me negar
Da cruz que eu carrego e que você me deu
Você, você, você devia saber
Você parece muito bem
As coisas parecem em paz
Eu não estou tão bem assim
Achei que você deveria saber
Você se esqueceu de mim, Sr. Falsidade?
Detesto incomodá-lo durante o jantar
Mas foi um tapa na cara
O quão rápido fui substituída
Você pensa em mim enquanto transa com ela?
Pois o amor que você me deu e que
Nós construímos não foi capaz de fazer
Você se abrir totalmente, não
E toda vez que você diz o nome dela
Ela sabe que você dizia que ficaria comigo
Até morrer, até morrer?
Mas você ainda está vivo
E estou aqui para te lembrar
Da bagunça que você deixou quando foi embora
Não é justo me negar
Da cruz que eu carrego e que você me deu
Você, você, você devia saber
Pois a piada que você mencionou na cama era eu, 
e eu não vou sumir assim que você fechar seus olhos, você sabe
E toda vez que arranho as minhas unhas
Nas costas de outra pessoa, tomara que você sinta
Está sentindo?
Bem, estou aqui para te lembrar
Da bagunça que você deixou quando foi embora
Não é justo me negar
Da cruz que eu carrego e que você me deu
Você, você, você devia saber
Foi a Alanis, mas poderia ter sido eu. 
Nana.

sábado, 18 de agosto de 2018

Cem!!

Olá meus amigos!!

Hoje abri o blog e vi que essa é a postagem de número cem!! Sim, senhoras e senhores, temos 99 coisas escritas por mim nesse espaço que chamo de meu e que vocês, de vem em sempre, visitam.

Sendo assim, decidi que nessa postagem centenária vou abrir meu coração pra vocês e contar sobre cem grandes (e nem tão grandes assim) sonhos que eu tenho. Coisas que ainda quero e acho que dá pra fazer e outras que eu sei que jamais conseguirei, mas já dizia a rainha dos baixinhos "tudo pode ser e se quiser será!".

Vamos lá? Vamos lá.

1 Ser surfista - mesmo com esse joelho podre;
2 Ter filh(x) surfista;
3 Fazer parte do Bonde das Maravilhas;
4 Ser passista
5 Desfilar num carro alegórico - sem aquelas roupas enormes aparecendo só os olhos;
6 Conhecer o Caribe;
7 Conhecer Fernando de Noronha;
8 Ter um chuveiro a gás;
9 Morar numa casa com quintal grande pro meu cachorro correr feito louco;
10 Ter uma rede nessa mesma casa;
11 E uma piscina - que pode ser de plástico
12 Ter um carro preto pra chamar de Falcão
13 Ir na Praça 2 e comprar TUDO que tenho vontade sem fazer conta;
14 Viver sem fazer conta;
15 Não precisar mais usar óculos;
16 Diminuir meu nariz;
17 alugar uma limousine com minhas amigas - preta, rosa é ranço;
18 Dar um tiro;
19 Ter alguém pra arear minhas panelas;
20 Parar de escutar de macho sem argumento que to muito nervosa;
21 Que meu cachorro pare de peidar podre - soltou um SINISTRO aqui agora;
22 Que Caetano faça uma música pra mim;
23 Botar o nome do meu filho de Caetano;
24 E ter a minha Maria Alice;
25 Ser uma velha muito divertida
26 Ter meu enterro cheio de amigos contando boas histórias sobre mim
27 Viver sempre boas histórias
28 Achar sempre graça das não tão boas assim
29 Chorar quando tiver vontade
30 Gargalhar quando tiver vontade
31 Ser magra pra sempre;
32 Ir ao show da Madonna;
33 Andar de skate;
35 Não cair andando de skate;
36 Ter um banheiro com banheira e velas aromáticas
37 Escrever um musical
38 Escrever um livro - mais de um, na verdade
39 Ser uma tia muito maravilhosa pro meu sobrinho
40 Ver minhas crianças crescendo em graça e conhecimento
41 Ser uma paquita
42 Conhecer a Xuxa
43 Compor uma música com a Marisa Monte
44 Ter mais de mil seguidores no Instagram
45 Ter um companheiro pra vida - que não seja um cachorro
46 Conhecer Pipa
47 Abraçar um macaco
48 Saber por onde anda o Philippe - meu primeiro namorado
49 Casar na praia
50 Receber alta da terapia
51 Viajar por todo o litoral do Brasil de carro
52 Ser mais regulada com meu dinheiro
53 Usar o shampoo certo pro meu tipo de cabelo;
54 Nunca ter insônia;
55 Dançar num pole dance;
56 Aprender dança do ventre;
57 Fazer boxe;
58 Voltar pro Pilates;
59 Ter sempre uma garrafa de vinho na geladeira;
60  Conhecer o Silvio Santos;
61 Participar da plateia do Domingo dele;
62 Ter o arquivo confidencial do Faustão;
63 Orar no muro das lamentações;
64 Ler a Biblia toda;
65 Ter alguém pra limpar minha casa;
66 Fazer uma hortinha;
67 Comer coisas mais saudáveis;
68 Tirar carteira;
69 Ter dinheiro pra investir;
70 Mandar algumas pessoas à merda;
71 Ter um quarto de hóspedes - esse ta quase quase;
72 Ter mais de cem capinhas de celular;
73 Ter mais de cem capinhas de celular sem ser julgada;
74 Fazer um cruzeiro - sem ser o do Roberto Carlos, peloamordedeus;
75 Ir no show do Fábio Junior;
76 Ser amiga da Carol Sampaio;
77 Ter fluência no inglês;
78 Ter fluência no francês - acho muito sexy;
79 Viajar com todas as despesas pagas;
80 Trabalhar sem ter horário;
81 Acordar quando o destino assim quiser e não o despertador;
82 Eliminar o despertador;
83 Comprar roupa de graça na Aquamar;
84 Cartão fidelidade Aquamar;
85 Ver neve;
86 Fazer um boneco de neve com nariz de cenoura;
87 Conhecer os Hanson;
88 Viajar com a Tatiana e a Lívia - se possível na mesma viagem;
89 Levar meus filhos pra brincar no Aterro
90 Levar meus filhos pra nadar no Arpoador à noite;
91 Fazer uma festa no Parque Lage;
92 Bater um papo cabeça com Chico Buarque;
93 Ir no show da Ivete;
94 Namorar o Cauã Reymond;
95 Não mais ser feita de idiota;
96  Morrer e ir pro céu;
97 Botar maiô e não me sentir um fiapo de macarrão;
98 Não ter mais rinite;
99 Não ter mais sinusite e bronquite;
100 A paz mundial


obs: As coisas não estão em ordem de importância nem em qualquer outra ordem. Apenas estão.




                                                                                                  Nana























segunda-feira, 6 de agosto de 2018

#Fénasmalucas

     Eu não sei vocês, mas eu já vi essa hashtag em algumas publicações de amigos meus nas redes sociais. Amigos homens e mulheres. De cara confesso que fiquei assustada, meio sem entender o contexto. Depois fui pesquisar os motivos e continuei assustada; mas confesso que parei pra pensar sobre o assunto e é por isso que estamos aqui hoje, nesse post.

     Eu cresci rodeada de malucas. Minha mãe, carente por natureza, algumas amigas dela, algumas amigas minhas. E eu meio que reprimi aquela "maluquice feminina" dentro de mim porque sempre me perguntei "quem aguenta lidar isso, meu Deus do céu?". Hoje eu mesma me respondo: todos os homens. Sim, to generalizando, sim! A ciumenta, a psicopata, a que liga 873664 vezes por dia, a que vigia as redes sociais, a que cria amizade com a sogra pra vigiar a vida do cara, a que faz escândalo, a que chora, a que se descabela, a que ameaça de morrer e matar. Eles amam!!!

     Sempre tive muitos amigos homens e, diversas vezes, os ouvi dizer:

   - Cara, minha mulher me ligou trezentas vezes hoje!!! Olha só! Tá ela me ligando de novo... não vou atender... C H A T A P R A C A R A C A!

     Mas ta lá, até hoje com a insuportável...

     Antes que eu me esqueça e me perca nos meus devaneios, deixa eu explicar uma coisa pra vocês; uma máxima: Todas as mulheres são chatas. Ponto. Todas, sem exceção. Porém existem as chatas e as C H A T A S P R A C A R A C A!! E na maioria das vezes essa segunda categoria sempre se dá melhor em relacionamentos amorosos. A insuportável azucrina tanto, mas tanto, que consegue tudo que quer. E o tudo que tô dizendo é tudo mesmo. De atenção a bens materiais. Se o cara cede porque tá de saco cheio de tanto ouvir ela falar, não importa. Ele cede. E esse é o x da nossa questão.

     As simplesmente chatas são as que eles idealizam. A mulher complacente, centrada, que tudo entende, que tudo releva. Essa é a que eles carregam como um ideal que eles mesmo sabem que não aguentam carregar. Porque no fundo é a insuportável que eles amam.

     Eu já pensei em algumas questões como ego, por exemplo. Tipo "Minha mulher me enche o saco porque eu sou muito maravilhoso.. olha como ela não vive sem mim, olha como ela tem medo de me perder..." é uma possibilidade. Não é? Eu acho que sim. A simplesmente chata não gera esse frisson. Porque ela está ali, mas não se importa tanto. Ela pode, de repente, não mais estar. E a insegurança pro homem é um negócio que pega, não pega? Pega...

     Já pensei também em segurança de não ser traído. Uma outra possibilidade bem forte. Porque se a mulher é aficionada por alguém, a chance dela desviar os olhos pro lado e se interessar por outra pessoa é quase nula. Quase. Pra esse exemplo eu gosto muito daquela música do Sorriso Maroto que fala justamente sobre esse olhar "eu não percebi que você já não estava mais ali". Sinais, o nome da canção, a quem interessar. Vale ler a letra da música, aos que não são amantes de pagode.

     Enfim, voltemos.

     Não são só esses motivos, eu acredito que existam muitos outros que eu sequer desconfio.

     Eu já perdi as contas de quantas loucuras eu já vi mulheres cometendo por "amor".

     (Amor entre aspas porque pra mim, eu, Joanna, isso é qualquer coisa, menos amor. Mas ele o é dessa forma pra muita gente. Respeito. Respeitem, também, minhas aspas).
 
     Exames falsos de gravidez já vi aos montes, descobrir senha de celular e manter isso em segredo em pencas, seguir o cidadão de carro por algumas horas algumas vezes, ligar pra suposta amante pra falar meia dúzia de abobrinha e se expor a esse ponto e passar essa vergonha uuuii... muitas vezes. Contratar um bandido pra roubar o celular do cara pra poder ler as conversas também. E de todos esses exemplos que eu dei, 95% dessas senhoras permanecem firmes em seus relacionamentos. Por que? Porque sim.


                                                                                             Nana

   





quarta-feira, 27 de junho de 2018

"Porque o amor pode estar do seu lado..."

     Hoje entrei na van indo pro trabalho naquele desespero de sempre - atrasada, desesperada e dando bom dia sem olhar a quem.
     Como acontece quase todos os dias, não tinha lugar pra sentar e segui a viagem em pé. Eu detesto quando isso acontece, mas...
      Normalmente eu já entro na van de fone alto de propósito pra não escutar os assuntos, que na maioria das vezes não me interessa, mas hoje não deu tempo. Entrei sem o fone, em pé na van lotada e de mau humor, aquele matinal de praxe. Até que olhei pro lado...

     Eu queria, antes de continuar a história, fazer uma observação sobre olhar pros lados. Muitas vezes eu já vivi muitas situações que passariam despercebidas se eu não tivesse parado e prestado atenção no entorno. E isso envolve experiências boas e ruins.
     Já vi casais começando, relacionamentos terminando pelo whatsapp (sim, eu presto atenção na conversa das pessoas que sentam do meu lado no ônibus; desculpa, mas eu faço), já vi um homem sendo assassinado e eu vi quem foi que matou, embora eu tenha quase certeza até hoje de que muita gente não sabe que foi ele. E espero, em Deus, que eu esteja enganada e que aquele homem esteja preso.

     Enfim, meus amigos, olhem pros lados.

     O mundo acontece ao nosso redor e a gente precisa prestar atenção. Depois que celular passou a ter internet, câmera e tudo mais, a gente só anda enfiado com a cabeça olhando pra baixo e esquece que tem vida bem do nosso lado. A realidade das ruas é muito mais real do que a do Instagram. Acreditem em mim, eu não mentiria pra você. Não aqui, não nesse texto.

     Observações feitas, continuemos a história.

     Olhando pro lado, encontrei um casal sentado nos últimos bancos da van, lá no fundo. Ela tinha mais ou menos (na minha cabeça, né?) uns 65 anos e ele uns 68, sei lá. Eu não sei se os dois compartilharam toda uma vida ou se estão juntos a pouco tempo. Eu não sei nada sobre eles, apenas o que venho vos contar aqui.
     Os dois estavam de braços dados. Ela toda sentada na postura, empinada, com as unhas feitas, os cabelos arrumados num coque desorganizado de propósito, um batom meio vinho, porém discreto e a bolsa no colo. Ele estava levemente inclinado pro lado dela, de regata, bermuda jeans, chinelo, o pouco cabelo não tinha visto pente com certeza.

     Ela falava, muito. Falou, falou e falou. Sobre uma neta, sobre uma mulher (que eu acho que era uma amiga mais jovem dela) que tinha 35 anos, dois filhos e uma loja de banho e tosa. O ex marido dava R$450,00 de pensão pros dois filhos enquanto a mulher se matava de trabalhar pra sustentar as crianças que, segundo ela, comiam bem, bebiam bem e precisavam se vestir.

     - Injusto gente! Traste! Quem vive hoje com R$450,00? Ainda mais com duas crianças!

     Depois ela falou sobre uma outra mulher (que eu também acho que é amiga) que estava trabalhando numa casa de família onde todos os dias precisava ter suco de frutas naturais e queijos na mesa.

     Nesse momento eu me desliguei um pouco da conversa pra pensar sobre isso. Como que pode realidades tão diferentes, meu Deus? E nesse caso eu nem sei, honestamente, se é um problema cultural, social ou de falta de informação. Por que é motivo de espanto suco de frutas naturais e queijo? Fica a reflexão. Talvez um dia eu escreva sobre isso. Talvez.

     Depois de terminar esse assunto ela comentou que hoje teria jogo do Brasil e que isso prejudicaria os seus afazeres.

     - Temos que fazer tudo bem rápido, porque uma hora eu tenho certeza que fecha tudo!

     Enquanto ela falava sobre todas essas coisas e mais algumas que eu não consegui prestar atenção, ele ouvia. Aquele homem ouvia a tudo. Enquanto ela tagarelava e concluía sozinha seus raciocínios, ele olhava pra ela e apenas escutava. Às vezes ele balançava levemente a cabeça em concordância, outras vezes franzia o cenho, talvez em desacordo.

     Até que, em determinado momento da conversa, ela olhou pra ele com tanto afeto, começou a fazer aquela vozinha de criança dizendo "mas você é o amor da minha vida! Você é meu sorriso, minha coisa gostosa de viver" e aquele homem que só ouvia, sorriu com a boca, com os olhos, com as mãos. E eles se olharam de um jeito que há muito tempo eu não vejo ninguém se olhar. Sério. E tocaram no rosto um do outro enquanto se olhavam. Ele balbuciou alguma coisa bem perto dela, ela sorriu em retribuição e eu não consegui mais prestar atenção neles dois porque meu telefone tocou e foi uma péssima hora pra tocar, porque eu ficaria olhando pros dois até agora, se pudesse.

     Bom, é isso e é sobre isso. Uma mulher sendo mulher, falando pelos cotovelos coisas importantes pra ela. Um homem ouvindo, calado, mas não menos interessado. Uma manifestação de afeto, uma retribuição. O amor. É sobre o amor. E sobre olhar pros lados e ouvir.


                                                                                  Nana.










sábado, 9 de junho de 2018

Poucas Fridas e bem menos Diegos


     Eu sempre tive uma admiração muito grande pela figura da Frida Kahlo e nunca soube exatamente porquê. Talvez tenha sido algum tipo de identificação subconsciente, acredito muito nisso.
Eu já tinha lido alguns de seus versos, já tinha admirado algumas de suas pinturas, conhecia um pouco de sua história e hoje percebi que muito pouco, senhores.

     Hoje vi o filme da vida de Frida Kahlo que está disponível no Netflix e, meus caros, eu não consegui nem sorrir e nem chorar durante todo o filme. Era como se eu estivesse ali, de alguma forma que não sei explicar. Era como se eu conseguisse sentir a dor daquela mulher desde o maldito acidente no ônibus. Eu já passei por muita coisa na minha vida, muita MESMO, acho que muitos de vocês não conseguem nem imaginar. E que assim permaneça. Mas eu não sei se suportaria 30% da dor que essa mulher suportou. Dor física, dor de alma, dor de uma história que poderia ter sido totalmente diferente se ela não tivesse pego aquele ônibus; mas ela pegou. E tudo o mais veio e ela resistiu. Só por isso eu já teria muitos motivos para admirá-la. Mas ela conheceu Diego e, bem, eu gostaria muito de falar sobre Diego nesse texto.

     Eu conhecia fragmentos de Diego Rivera, até hoje. Eu odiava Diego, até hoje.

     Não é que passei a amá-lo com esse filme, não, longe disso. Diego está longe de despertar algum tipo de admiração da minha parte, pelo menos. Mas é que eu sempre soube de Diego pelos outros, hoje eu conheci Diego pelos olhos dela. E muita coisa mudou.

     Diego nunca mentiu, Diego nunca prometeu algo que não poderia dar. Aliás, minto. Diego não cumpriu sua promessa de ser leal quando se relacionou com a irmã dela. Mas Diego também sempre deixou claro que não seria fiel. Ele queria ela por perto, ele precisava dela, do amor dela, dos conselhos dela, da presença dela, mas sempre deixou nítido o quanto precisava do sexo de outras mulheres.

     Talvez o erro da Frida, como o meu, como o de tantas outras que conheço, tenha sido achar que com ela seria diferente. Meu Deus, até quando nós vamos achar que somos mais especiais que as outras? Essa é uma ideia tão estúpida e idiota e que acontece com tantas e tantas de nós que já era pra termos aprendido alguma coisa com toda a desgraça que isso causa! Já passou do tempo de entendermos que a que passou antes de nós não é uma inimiga, não é a razão de todos os males, e a que vem depois de nós não é uma ameaça, não é o símbolo de derrota e pequenez nossa. São apenas outras que foram, outras que virão. Frida entendeu isso depois que casou com Diego. Eu estou entendendo isso agora.

     Kahlo sentiu dor de amor, surtou, permitiu-se surtar. Foi embora, voltou. Declarou seu amor, se arrependeu, mas declarou de novo. Deu espaço, se aproximou. Disse a verdade, o tempo todo. Pra ela, pro mundo e pra Diego.

     E Diego, senhores, de um jeito só dele, amava aquela mulher. Ele nunca a limitou, ele nunca a diminuiu. Diego Rivera foi um dos maiores artistas de sua época, mas sempre disse "ela pinta muito melhor do que eu". Diego deixava Frida ser quem ela era. E isso implica em tanta, mas tanta coisa!

     Eu estou aqui pensando que Diego, talvez, nem tivesse muita noção do que fazia por ela. Eu acho que ele fazia por amor (que, sinceramente, acredito que ele só percebeu na velhice) mas estava ali. E sabe qual a diferença de Diego pra tantos homens que conheço? Diego sempre estava ali.

     Frida morreu precocemente, mas Diego estava lá até o fim. Ela já não podia mais andar, ela já não podia mais produzir como antes, ela já não tinha mais as mesmas cores, mas Diego esteve ali até o fim. Talvez fosse dessa lealdade a que ele se referira. Talvez fosse esse o amor que ela precisasse e que foi tão incompreendido, inclusive por mim.

     Eu já passei da fase de acreditar em amores perfeitos. Já me dei conta de que histórias de amor vão muito além do "felizes para sempre" e ver hoje, constatar uma história como a de Frida e Diego, desconstruiu muitas coisas dentro de mim, mais algumas delas. E eu me dei conta de que temos poucos Diegos nesse mundo, mas também não temos muitas Fridas. O título inicial desse texto dizia que somos todas Fridas, mas não somos não. Poucas mulheres seriam tão grandes, pensariam tão grande e seriam tão profundas. Pouquíssimas.

     Eu não sei se alguém vai ler esse texto, mas eu precisava digerir tudo que acabei de ver e registrar pra não esquecer. Já vi muitos filmes com histórias de mulheres reais que sofreram pra cacete e algumas até morreram por conta desse amor. Elis, Amy e algumas outras que não to lembrando agora. Mas a diferença, meus caros, é que eles não estavam lá até o fim. Eles não ficaram, mas Diego estava. Diego estava lá! E isso faz toda a diferença. Fez pra Frida, e pra mim.

Nana












quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

2017 / 2018

“Vou terminar o ano sozinho. Incrivelmente sozinho. Estupidamente sozinho. Corajosamente sozinho. Resilientemente sozinho. Por escolha própria e bastante segura, sozinho. Por incrível que pareça, sozinho. E é um brinde a todos os sozinhos que escrevo este texto. Àqueles que querem, sim, ter alguém com quem dividir a cama, os sentimentos, as sensações, a parte do dia, a gastrite atacada, a política do pais, as frustrações, perdas e danos. Àqueles que, sim, obviamente sonham com a pessoa-ideal que dará match em todos os sentidos e que compartilhará a rotina, o desejo de permanecer ali, a vontade de querer estar junto. Àqueles que, pasmem, se sentem carentes, muitas vezes solitários e à margem de qualquer relação romântica, talvez por insegurança, medo ou trauma.

Dedico este texto aos sozinhos que sabem que são sozinhos. Que entendem seu lugar no mundo porque fizeram dele um espaço para se esconderem. Aos que, por vontade própria ou não, passaram por esse ano criando seu próprio caminho de reconstrução, de amor a si mesmo, de aprendizados e certezas incertas. Ser sozinho não é tarefa fácil. Às vezes a gente quer ter com quem estalar o peito, rir das piadas mais inconsistentes possíveis, ver Netflix agarradinho, observar o outro dormir e agradecer por poder partilhar a existência. Ser sozinho é uma tarefa que requer pulso firme. Pra aguentar a carência. O desamparo. O desabrigo. É claro que os amigos existem e estão ai pra nos provar que é possível viver sem um amor, mas convenhamos: é que um carinho às vezes cai bem. E cai melhor ainda quando o carinho é mútuo, porque aí o coração aumenta de tamanho e ambos passam a experimentar o gosto que é estar, literal e metaforicamente, juntos.

Mas este texto é para os sozinhos como eu. Os que decidiram começar um longo caminho de redescoberta com o amor. Que não colocaram a responsabilidade de pertencer a alguém acima da responsabilidade, imensa, de pertencer a si próprio. Que chegaram até aqui morosos, mas não menos importantes na principal, melhor e maior aquisição sentimental a que nós estamos submetidos: quando a gente entende que somos tão suficientes, que o outro só virá pra ser similarmente suficiente. Conosco. Quando o outro vem visitar nosso corpo e ele fica encantado com a disposição dos móveis, a maneira organizada e sutil com a qual organizamos os cômodos, a maneira ímpar que tratamos nosso chão. É uma boa relação só quando quem vem entende que a casa já tem dono. Que a casa já foi construída (com esforço e muito suor) e está pronta para receber pessoas novas; que queiram ficar.

Confesso que a minha casa não tá pronta ainda. Acho que vai demorar até que eu consiga erguer muros sólidos, levantar uma estrutura capaz de fincar na terra, reorganizar tudo que está fora do lugar. Acho que é por esta razão que muita gente anda perdida nas relações, às vezes infeliz. A casa não tá pronta. Tá bagunçada. Não tá funcionando. E se não está apta para receber nem seu próprio dono, que dirá outra pessoa.

Então este texto vai pra todos que, assim como eu, tiraram o ano pra revisitar suas casas. Nesse processo doloroso e solitário que é a construção de um corpo leal, honesto e com saúde. Nesse processo sofrido e espinhento que é tentar entender por que a-grande-pessoa ainda não veio. Nesse árduo caminho de assimilar que estar sozinho significa que estruturas internas estão sendo remodeladas.

Este texto é um recado: tá tudo bem se você terminar mais esse ano sozinho, sem ninguém. Por vontade própria ou não. Por sorte ou azar. Por uma opção sua ou do universo. Você está exatamente onde deveria estar e esse texto é um brinde a nós.

E uma última coisa: a pessoa mais importante, sempre, nesse processo todo já chegou e está aqui. Esse alguém é você.”

Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente