quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

38 fatos sobre 38 anos

eu sei montar móveis

amo ler a Bíblia

eu tenho amigos que mantenho desde os 3 anos de idade

sei fazer churrasco

tenho ensino superior

nunca fui presa

trabalho em um emprego que gosto e que me faz bem, com pessoas que eu amo

já peguei um ex bbb

sei todas as coreografias do é o tchan

cuido bem das minhas plantas

cuido bem das minhas pessoas

meus ex não me odeiam

as crianças me adoram

tenho bom gosto musical (ok, há controvérsias)

sei nadar

sou uma boa vizinha

minha comida é uma delícia

eu choro lendo livros

eu choro vendo novelas

eu amo assistir novelas antigas

tenho compulsão por capinhas de celular

hoje tenho 9 tatuagens

meu livro favorito é Dom Casmurro; e a Capitu não traiu o Bentinho

não gosto das suculentas quando crescem, só gosto enquanto estão pequeninihas

lírio é minha flor favorita

amarelo é a minha cor preferida

odeio bife a parmegiana

limão me dá alergia

sou apaixonada pela Frida Kahlo

tenho a boca muito suja, mas meu coração é limpinho

quando fico bêbada eu imito um gato vomitando. Idêntico

nunca mais eu bebo gin

tenho pânico de gente lerda

eu tomo banho quente no verão

to tentando escrever um livro há anos

ouço música enquanto tomo banho

meu riso é frouxo e alto e de verdade

eu nasci em 1984


Nana.







sábado, 19 de fevereiro de 2022

Casa de marimbondo

   Onde eu moro tem um hall de entrada, como se fosse um corredorzinho só meu, visto que aqui no prédio tem um apartamento por andar. E nesse hall ficam a casinha do Bóris, casinha essa que nunca foi utilizada, os sapatos que tiro quando chego da rua - nunca, jamais, entro de sapatos sujos em casa-, um capacho e um quadro de "boas vindas" com os dizeres: "sinta-se em casa, mas lembre-se que não está". E nesse hall de entrada tem uma janela de vidro que eu costumava deixar aberta para arejar o ar do corredor do prédio. 

   Essa é a porta de entrada da minha casa. A única forma de entrar nela, no meu refúgio, meu lugar seguro. E estava tudo bem durante todos esses anos. Até que... bem, até que um marimbondo entrou pela janela e ficou ali, paradinho. No primeiro dia que eu o vi eu tive medo, receio de que ele voasse na minha direção, de que se sentisse ameaçado e viesse me ameaçar. Defesa, sabe? Instinto. Mas não. Ele ficou ali parado, me observando enquanto eu tirava meus sapatos sujos de rua e observava ele. Nos encaramos por alguns minutos, eu entrei, ele ficou.

   Eu não sei por quantos dias mantivemos esse contato. Foram alguns, não muitos, O fato é que ele continuava ali e eu perdi o medo. Já não me importava mais dele estar parado me olhando enquanto eu tirava os sapatos, porque eu tinha certeza de que assim ele permaneceria. Ai, Joanna. Você e suas certezas.

Até que um dia eu abri a porta para sair de casa e vi que ele estava sobre uma coisa meio estranha, umas casquinhas brancas, sei lá. Ignorei. Segundo dia, mesma posição, mesmas casquinhas, mesmo sapato fora do pé, mesma despedida. Próximo dia. Passou um tempo, não lembro quanto (eu preciso me atentar mais aos detalhes, cara. Questão de sobrevivência; porque não pode se ignorar os detalhes e eu vivo os ignorando) e numa tirada de sapatos eu pude ver; tinha uma casa de marimbondo ali. Uma casa na minha casa e eu não percebi que isso vinha sendo construído. Eu simplesmente não percebi, como muitas outras coisas que passam batido bem na ponta do meu nariz. Bem no corredor de entrada da minha casa.

   Aquele bicho se aproveitou da nossa relação de confiança. Ele simplesmente tomou pra ele um lugar que era meu! Eu o deixei em paz, eu não o importunei, respeitei seus espaços cedendo um pouco do que era meu!! E agora esse golpe! Essa quebra naquilo que tínhamos como seguro, eu e ele! Por que fez isso comigo?? Por que não continuar como estava e caminhar, talvez, pra uma relação ainda mais confiante e conveniente pra nós dois? Por que não fazer seu lar em outro lugar e manter as visitas apenas pra que a gente soubesse que um tinha o outro ali? Muitas questões, todas sem resposta.

   O fato é que tinha uma casa na minha casa, sem a minha autorização, sem que eu ao mesmo soubesse que aquilo estava sendo feito, sem um aviso prévio, sem consideração. E eu precisava fazer alguma coisa. Não fazer nada também é fazer alguma coisa, mas eu não podia. Qual tamanho aquela casa poderia ter depois de algum tempo mais? Já estava enorme! Uma casa na minha casa? Não! Construir seu lugar seguro e tirar a minha segurança? Não! Não! Não!

   Eu demorei muito pra entender sobre limites, muito. Aprendi sobre espaços e direitos um pouco tarde, com dor, carregando cicatrizes desses aprendizados. Eu sempre achei que era possível dividir minha casa. Por que não? Eu sempre achei que podemos ser melhores quando damos um espacinho pro outro se sentir acolhido dentro daquilo que construímos de seguro pra nós. Mas os marimbondos não respeitam essa relação de troca. Eles fazem suas casas, trazem suas famílias, seus medos, inseguranças pra dentro desse lugar e nos ameaçam naquilo que era nosso! Eu aprendi na marra que isso não é justo. Comigo!

   Me cobri de coragem, peguei uma vassoura, prendi meu cachorro. Essa luta era minha. Derrubei a casa, o marimbondo e fechei  a janela. Rápido. Num golpe. Em segundos. Ele voltou e ficou batendo na janela. Batendo, batendo... e eu fechei a porta. Não quis ver. Não quis entender se aquilo era uma despedida ou um pedido de desculpas, ou ódio pela minha decisão de não querer mais. Eu fechei a porta e pronto. Todos os dias o marimbondo vem na janela da minha sala. Eu sei que é ele, mas a janela está fechada. Ele não entra mais. Não tem mais perigo. E que esse e qualquer outro marimbondo jamais esqueça do que está estampado, bem grande, na minha porta: sinta-se em casa, mas lembre-se que não está! 


Nana.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Vacinadah 💪

 Enfim, VACINADA!


    Já faz algumas semanas que, enfim, consegui me vacinar contra a Covid-19! E, meus leitores, eu não sei nem descrever pra vocês a sensação de alívio. Ainda é só a primeira dose (falta a segunda que irei tomar em Agosto), mas a felicidade de sentir que um pouco de proteção contra esse vírus terrível entrou dentro do corpo é algo indescritível!

    Estamos há mais de um ano vivendo esse pesadelo de pandemia e eu acho que já passei por todas as fases que poderia enfrentando esse momento. Já tive períodos de frenesi extremo, tristeza absoluta, depressão, felicidade inexplicável, tudo isso num espaço de tempo curto entre um sentimento e outro. Muitas pessoas já desistiram do isolamento, outras sequer viveram isso. Risos. Mas se você, de alguma forma, qualquer forma, não se sentiu afetado por tudo que está acontecendo, você precisa rever algumas coisas na sua vida. E eu tô falando muito sério. Hoje são 487 mil mortos só no Brasil! Não vou nem contar nos outros países porque só os números daqui já são assustadores o suficiente. Muitas pessoas desempregadas, outras que perderam entes queridos. Algumas pessoas perderam toda a sua família. 

    E como que fica alheio a tudo isso?

    Mas enfim...

    O fato é que estamos vendo uma luz, mesmo que pequena, no fim desse túnel tenebroso. Nessa semana, nos EUA, eles comemoraram o fim das restrições por conta do vírus com fogos e festa. Senti inveja, óbvio, e a sensação de que nem tão cedo desfrutaremos da mesma alegria. Ainda falta muita gente pra se vacinar, muitas pessoas não estão voltando pra tomar a segunda dose da vacina, ainda muito caos por aqui.

    Esse post deveria ser de felicidade e comemoração por conta da vacina e tudo mais, só que ando naqueles baixos dos altos e baixos que descrevi há pouco. Zero vontade de escrever, não consigo me concentrar em absolutamente nada. Já perdi as contas de quantos livros e séries eu desisti no meio do caminho. Tenho feito um esforço gigantesco pra permanecer "de pé". Mas eu sei que isso vai passar! Tem que passar, não é possível que não passe! 

    O primeiro passo já foi dado! Primeira dose no braço, com data marcada pra segunda. Primeiro motivo pra comemorar! Uma etapa importante nesse processo todo.

    Vacinem-se! Cuidem-se e cuidem dos seus. USEM MÁSCARA e Fora Bolsonaro!


Nana.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Organizem seus arquivos

O mundo está bem louco, meus leitores. Cada dia mais.

Muitas das vezes até a visão que temos de nós mesmos, dos nossos desejos e anseios, do que somos, do que queremos, é bem turva. E, realmente, quando nem você sabe o que quer, quando nem você conhece a si mesmo, é difícil esperar que alguém o faça ou que você entenda a visão dos outros sobre você. Tá confuso? Acho que sim. Vou tentar melhorar.

Eu, como qualquer outra pessoa, já passei por muitas e péssimas na minha vida. Mentira, tem gente que não viveu nem metade do que vivi e graças a Deus por isso. Primeiro porque detesto competir desgraça e, segundo, porque não desejo isso pra ninguém. Mas todo mundo tem seus problemas, suas dores, seus traumas, suas feridas. TODO MUNDO!! 

E num determinado momento da minha vida, afogada nessa lama de situações ruins, eu me vi total e absolutamente perdida. Eu não me reconhecia mais. Não sabia mais do que eu realmente gostava, quais eram as minhas reais convicções. Quem me conhece de poucos anos pra cá, me vendo hoje, é incapaz de acreditar que passei por um momento como esse, mas sim, eu passei. Lembro que um dia, nessa fase péssima, fui a um encontro de ex alunos da escola que estudei do maternal até a 8ª série. Lá encontrei amigos que me conheciam desde os 4 anos de idade! E eles falavam de mim, coisas sobre minha personalidade, sobre meu jeito de agir e lidar com certas situações, que eu não lembrava mais. Eles iam falando e contando suas visões sobre mim e um clarão ia se abrindo na minha frente. Como se um grande espelho fosse colocado ali, diante de mim, para que eu pudesse voltar a me enxergar. Foi uma experiência que me marcou muito! Saí de lá pensando tantas coisas, lembrando de tantas coisas e buscando outras pra formar meu eu que estava perdido. Mas só aquelas horinhas com eles não foram suficientes. Talvez, ali, fosse apenas o começo de tudo. O botão que precisava ser apertado para que eu entendesse que realmente eu não estava nada bem.

A gente vai vivendo, se atropelando, começando dia e acabando dia e muitas das vezes a gente não consegue cuidar da gente. Cuidar no sentido literal da palavra. Ter o cuidado de se olhar e perguntar: do que você tá precisando agora? Não vou mentir pra vocês. Quando eu mais precisei, eu não me fiz essa pergunta. Quando eu não aguentava mais, quando eu não me reconhecia mais, um anjo apareceu na minha vida e me ofereceu ajuda. E o que ela tinha pra me oferecer iria mudar minha vida pra sempre. 

Comecei a fazer terapia.

E, meus leitores, mudou tudo! Tudo, tudo, tudo! Pode parecer exagero - e eu sei que sou mesmo exagerada - mas não.

Foram alguns bons anos revirando minhas gavetas e organizando meus arquivos emocionais (como minha terapeuta costumava dizer). Era botar tudo pra fora pra poder arrumar. E eu o fiz. De coração aberto. De mente escancarada. Eu me permiti sentir e dizer e tentar resolver toda aquela merda. Anos de merda. Minhas, dos outros, merda que os outros jogaram em mim e que eu joguei num monte de gente também. Cada consulta espetava uma ferida diferente e me fazia sangrar, sentir dor, mas enxergar coisas que eu jamais enxergaria sozinha. E nem sempre eram flores e "eurekas". Em várias consultas eu sai de lá não concordando com absolutamente nada e achando tudo uma grande viagem, um grande devaneio.

- Essa mulher não me conhece! Tá falando besteira! Sabe nada da minha vida!

E às vezes passavam algumas horas, noutras alguns dias, mas a ficha sempre caía... e doía viu? E eu voltava a pensar "não é que ela tinha razão?". Horrível gente. E um alívio.

O que eu quero dizer com tudo isso? Você deve estar se perguntando. 

Meus problemas, meus traumas, meus medos não acabaram. Ao contrário. Mas hoje eu consigo lidar com eles de uma forma que não me machuca mais; ou machuca muito pouco. Hoje eu sei exatamente quem eu sou e pra onde estou caminhando. Hoje eu só vivo o que eu me permito! Pode parecer pouco pra você, mas pra mim significa tudo. Dizer não, me afastar, me aproximar, perdoar, me perdoar e seguir hoje fazem parte da minha vida de uma maneira natural, como respirar. Não foi assim por muito tempo.

Então, meus leitores, por um mundo menos louco, façam terapia. Para entender suas dores e para parar de machucar os outros, façam terapia. Para entender seus limites e para recomeçar façam terapia. Para acalmar a mente, respirar com calma, para ver uma luz onde só tem escuridão, façam terapia. Meus leitores, invistam em vocês mesmos e na sua saúde mental. Se reconectem, se reconheçam, se perdoem, se entendam.

Revirem suas gavetas e organizem seus arquivos emocionais. 

Façam terapia.


obs: Obrigada Ellen! Pelos anos de ajuda, pela paciência e por me acolher no processo que eu precisei passar para me re-conhecer. Serei eternamente grata por tudo. E que Deus continue abençoando sua vida e te capacitando para que você possa ajudar na organização do arquivo de outras pessoas. 💓


Nana.






terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Em casinha 💗

    Hoje é dia 08 de dezembro de 2020. Um marco na minha vida.

    Lembro direitinho, há cinco anos atrás, eu deitada num edredom dobrado ao meio, no chão da sala escura (porque ainda não tinha ligado a energia do apartamento), num travesseiro velho emprestado, tal qual o edredom.

    Chovia. Muito.

    Lembro de olhar pela janela praquela tempestade de raios e trovões e, mesmo com muito medo - sim, tenho medo de tempestade - agradecer. As lágrimas escorrendo pelo rosto de tanta gratidão e paz. Deitada no chão da sala ainda vazia.

    Faz cinco anos que decidi morar sozinha e vocês talvez não tenham noção da real mudança que isso trouxe pra minha vida. Foi desse dia em diante que decidi pagar pela minha liberdade, pela minha paz. E, meus caros, nada é tão caro quanto a sua paz. Quanto você poder respirar aliviada, ter seu canto, seu lugar, seu refúgio. Pra muita gente isso não vai fazer o menor sentido, mas pra muita gente isso vai significar tudo. Muitos leitores, que aqui vem, vão entender exatamente do que estou falando.

    Eu lembro, com muito orgulho, de cada conquista. Do sentimento que me acometeu no momento em que peguei as chaves da quitinete que seria minha por dois maravilhosos anos. Eu não tinha praticamente nada. Uma cama, um armário velho que fora remontado pela terceira vez (e ainda inteiro porque nunca foi sorte, sempre foi Deus), um rack e um micro-ondas. Essas eram as minhas posses. 

    Minha primeira aquisição foi uma geladeira usada desde o descobrimento da energia elétrica. A bicha era torta, envergada pra direita, amarelada e gelava mais que o suficiente. Coloquei uns adesivos nela pra melhorar o aspecto e foi ela que me serviu durante esses dois primeiros anos. Pra mim ela era maravilhosa! O fogão eu ganhei de uma amiga muito querida e com ele estou até hoje. Mas esqueci que pra usar o fogo tinha que ter gás e, por conta desse ato falho, só fui estrear o fogão um mês depois. Não tinha grana pro gás até então. E estava tudo bem! Vamos de comida de micro ou açaí!

    Nas janelas, sem cortina, coloquei papel de presente do Papai Noel, pra ninguém ficar bisbilhotando pela janela. Usei desse improviso até uma outra amiga me presentear com uma cortina (que uso até hoje em um dos quartos do meu, então, apartamento).

    A TV também era emprestada e o volume não funcionava muito bem. Começava bem baixinho e ia "esquentando" até estabilizar o volume normal. Durou três anos até explodir. Sim, ela explodiu na Copa e ai comprei uma nova. Smart. Olha que chiqueza!

    O sofá veio bem depois da mudança. Até então quem vinha me visitar sentava na cadeira de praia e no edredom. Aquele do começo do texto, lembra? Era ele meu sofá. Depois comprei um bem legal pago em 10x sem juros que já tá na hora de ser trocado, inclusive.

    Lembro dos primeiros perrengues que passei com insetos, da barata que "bati" na máquina de lavar, da vizinha que derrubava tudo na minha área de serviço (tem um texto aqui no blog falando sobre isso), de uma vez que quis usar azeitona e não conseguia abrir o vidro de jeito nenhum. Fiquei com tanta raiva que quase joguei no chão e catei as azeitonas. Não fiz por um triz... juro.

    A decoração do apê eram três quadros velhos que peguei de alguém que não quis mais. Só. Não era minha prioridade na época e eu sabia que seria momentânea aquela primeira fase. Que com o tempo eu iria conseguir fazer as coisas do meu jeitinho. 

    Tempo... a gente precisa saber esperar e saber entender que ele passa. Sempre passa. 

    Hoje, cinco anos depois, não tenho mais quase nada daquela primeira fase, daquela primeira quitinete. Poucas coisas sobraram; a maioria eu troquei, comprei novo. Respeitei meu tempo, respeitei minhas limitações. Respeitei minhas condições sempre acreditando que as coisas iriam melhorar. E melhoraram! Minha casa é linda! Toda decorada do meu jeitinho com muito investimento do meu dinheiro de férias e 13º na Praça 2 e no Ponto Frio. Eu entro, hoje, na minha casa e me reconheço, me encontro, me refugio. Renovo minhas forças e energias.

    Ainda tem um monte de coisa que quero fazer, claro! Mas se parasse por hoje já estaria satisfeita. Na verdade, se parasse naquele dia, deitada no edredom no chão da sala também. Vocês podem achar que estou exagerando, mas não estou. Como eu disse, só eu sei o que esse teto sobre a minha cabeça significa pra mim.

    Tô fazendo esse texto hoje pra comemorar esses cinco anos de luta, de paciência e de coragem. Estou escrevendo, também, pra me lembrar que nada é impossível. Que eu quero e posso ser e fazer o que eu quiser com paciência e foco. Ah, e também resolvi escrever tudo isso por você. Sim, você, caro leitor, que precisa entender que dar o primeiro passo é preciso. Ninguém aprende a correr sem antes andar. E se você, como eu, não nasceu num berço de ouro e precisa correr atrás dos seus rolês sozinha(o), você precisa entender que os passos vem um de cada vez... um depois do outro, mas é preciso sair da inércia! 

    Talvez pra você os primeiros passos sejam bem tranquilos e suaves. Numa casa própria, ou num lugar com mais conforto. Mas talvez seu começo seja exatamente como o meu; com uma geladeira torta pra direita, com edredom como sofá e com a ajuda de muita gente que Deus levanta pra abençoar a gente. E tá tudo bem! Acredite, fica sempre tudo bem! 

    Cinco anos depois estou aqui pra garantir que fica e pra agradecer a Deus que tem me sustentado a cada minuto nessa coisa linda e louca chamada vida.

Nana.









quinta-feira, 16 de julho de 2020

Sol em Sagitário, Ascendente em Aquário – O Astronauta

     "De acordo com seu horário de nascimento, Joanna, seu signo ascendente é Aquário, que se combina ao Sol em Sagitário, se traduzindo numa personalidade extremamente humanitária, que tem grande fé no lado bom das pessoas e se conecta à busca de um sentido para a vida. Ainda que eventualmente você peque por ingenuidade e por uma crença exagerada em coisas fantasiosas, é justamente esta sua fé em coisas que os outros acham "absurdas" que lhe torna uma pessoa tão exótica e fascinante. Você não vende seus sonhos e ideais por nada, e os outros admiram esta certeza absoluta que move seu espírito.

     Aquário no ascendente dá uma qualidade amigável, que respeita a individualidade alheia, mas plenamente consciente da própria individualidade. Sagitário ascendente tem muita fé em si mesmo ou numa força maior. Esta combinação se traduz num notável poder de comunicação, Joanna, que você usa conscientemente para transmitir uma mensagem. Há algo de "missionário" na combinação de Aquário com Sagitário. É muito provável que você venha a escrever muito, ou palestrar. O gosto por literatura é notável também. Muitas viagens (físicas e mentais) são outra marca registrada.

     A dura realidade da vida lhe choca. Precisa aprender a lidar melhor com ela, a compreender que existe sombra onde existe luz. Não adianta dar as costas ao lado mais "escuro" da vida. É possível que a vida lhe apresente a muita gente sofredora, a fim de que você transmita um pouco de luz a elas, e aprenda a perceber que a vida não é só festa.
   
   Você tem um lado altamente filosófico, quase religioso, que pode e deve cultivar. O desafio aqui é aprender a aplicá-lo na realidade prática, que você acha cansativa e grosseira. Por você, a vida seria vivida com o máximo de relaxamento, e não deixa de ser interessante perceber o quanto você tem um lado "sortudo" - que chega a irritar gente que acredita que você não sofre, o que não é verdade. Você sofre, mas tem uma fé tão grande que tudo faz sentido, que consegue extrair a lição do sofrimento, enquanto os outros ficam simplesmente se queixando. Você não tem mais "sorte" do que os outros: você cria um campo de oportunidades com seu próprio pensamento - e é isso que sua alma veio ensinar os outros a fazer!"

Nana.
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sábado, 23 de maio de 2020

Pandemia

   Ontem encontrei uma das minhas melhores amigas, senão a melhor. Nós nos vimos porque eu precisava entregar uma coisa pra ela. Não pudemos nos abraçar, o que foi péssimo, porque habitualmente vivemos agarradas, grudadas. Ela levou dois pares de luvas, um pra mim e um pra ela. Colocamos as luvas e apertamos as mãos uma da outra, esmagamos as mãos sabendo que aquele seria o máximo de contato que poderíamos ter. Ela com os olhos marejados e eu também, ali de mãos dadas com luvas no ponto de ônibus. Sentamos, com um banco de diferença entre nós, de máscara e luvas e ficamos conversando. Tentando contar sobre coisas que não estariam acumuladas se não estivéssemos por tanto tempo uma longe da outra. Foi horrível!

   Tenho assistido muitos videos engraçados no Instagram e no Tiktok e meu riso tá diferente. Uma gargalhada histérica, acima do tom, exagerada. Nem sei se, em outras condições, acharia tanta graça de tantas coisas. Tô me alimentando de comédia pra não morrer de tédio e pavor, mas admito que hoje fiquei pensando se estou rindo mesmo, achando graça, ou fingindo pra eu mesma que tá tudo bem, tá tudo de boa, o mundo continua girando.

   A música tem me salvado também. Tenho curtido bastante coisa diferente das que eu estava acostumada. Rap agora tá bombando na minha playlist. MPB então, nem se fala!! Música de qualidade de uma galera que eu não conhecia ou conhecia muito pouco. Desligo a TV e fico ali, viajando no som que me traz a sensação de alma em paz. O poder da música, o poder da arte. 

   Já não sei quantos dias faz que estamos em isolamento social, em casa, fugindo de uma doença que tá matando mil por dia no Brasil, Enquanto escrevo esse texto a marca de mortos por essa praga está em 21.116. É gente pra caramba morrendo! Gente pra caramba!! Gente que duvidou do poder da doença, gente que não tomou os devidos cuidados, gente que fez tudo direitinho, mas pegou. Gente gente gente gente. Gente! Todos os dias, eu não estou exagerando, todos os dias recebo mensagem de alguém dizendo que alguém conhecido morreu. E enquanto isso eu tô aqui, tentando.

   Uma saudade absurda de praia, dos meus amigos, de bar, de música ao vivo, de escrever bilhetinho pedindo música, de querer tirar o sapato e sambar descalça, de rir, de abraçar, de chorar ouvindo uma história de sucesso ou de fracasso de alguém, de encontrar ex na rua e fingir que não viu, saudade de reclamar do BRT, de fazer xixi em pé no banheiro do bar, saudade de salto alto, meus amigos. Quem diria que a "mina do tênis" sentiria saudade de usar salto? Saudade de esperar a tarifa do uber baixar pra voltar pra casa, de pedir pro motorista aumentar o som pra eu cantar, saudade de forró e comer carne de sol com manteiga de garrafa. Uma tremenda falta de reclamar da música mal tocada de um show ao vivo de uma banda que é muito melhor no playback.

   Eu não queria que esse texto parecesse muito melancólico, juro. Mas não consigo porque tô só melancolia. Desculpem, leitores, é só o que tenho pra oferecer no momento. Algo diferente disso não seria real, não seria eu. E uma coisa que não sei fazer é fingir, graças a Deus.

   Não faço ideia de quando tudo isso vai terminar. Não tem um prazo pra que a gente possa voltar a viver normalmente, fazendo tudo que sempre fizemos, sem máscara, sem evitar encostar nas pessoas, sem ter que lavar saco de batata palha. Não tem nada legal nisso tudo que está acontecendo, NADA! É uma grande merda você não poder fazer as coisas, ter que lavar compras, andar de máscara e tomar banho de álcool gel. Mas não tem outro jeito e meu pai sempre me disse "o que não tem jeito, ajeitado está". E é isso, vamos nos ajeitando.

   Cuidem-se! Não se culpem pela preguiça, não se exijam, não se forcem, a nada! Façam tiktok, é muito legal e tem uns vídeos bem engraçados. Lavem as compras, usem o álcool gel, não entrem de sapato em casa, lavem suas máscaras, evitem assuntos estressantes, pessoas irritantes, ideias discrepantes. Ascendam um incenso; os de alecrim são uma delícia. Assistam a série "Todas as mulheres do mundo" no Globo Play. Dá um quentinho no coração que vocês também precisam sentir. Bebam água e tomem sol, se possível. Falta de vitamina D também mata. Façam vídeos pra aliviar as saudades, assistam lives (até enjoarem, porque eu já enjoei), durmam. Cuidem dos seus velhinhos, de perto ou à distância. Sobrevivam! Respirem! A gente precisa respirar, com tudo que isso significa.

   Vai passar.


Nana.

domingo, 8 de março de 2020

Pra elas, e pra eles que querem melhorar pra elas.

   Eu gostaria de escrever sobre três histórias que presenciei nessa semana. Acho oportuno relatar esses três eventos no dia de hoje. Tomara que compartilhem da mesma opinião que eu.

Na van:

    Eu estava na van, voltando pra casa e, milagrosamente, não estava de fone de ouvido. Ao meu lado uma moça grávida, no último banco do carro. Na frente tinha um homem sentado e um outro homem ao lado dele. Esse segundo homem levantou e, uns dez segundos depois, o outro homem olhou pra trás, pra mulher grávida ao meu lado, e num tom bem agressivo disse "Você se separou?". A mulher pareceu tão ou mais surpresa do que eu com a pergunta e a princípio não respondeu. Depois, com a pergunta repetida "Você se separou?" ela respondeu a mesma coisa que eu responderia "Quê?". Ele não satisfeito, e cada vez mais agressivo fez a mesma pergunta mais duas ou três vezes e foi quando eu entendi, de fato, o que estava acontecendo.

   Ela era esposa dele e, depois que o rapaz que estava do lado dele se levantou, na cabeça dele era automático que ela fosse sentar-se ao lado dele. Só que ela não foi. E aquela série de perguntas iguais foi, de alguma forma, pra que ela entendesse que não estava separada para sentar do lado do marido. Sim, foi exatamente isso.

   Depois de tudo isso - que durou uns minutos que foram me corroendo por dentro - ela levantou-se e sentou onde ele queria. Eu não tive como não prestar atenção naquele diálogo:

- Pensei que eu fosse ter que gritar mais pra você entender.
- Olha, eu to tão, tão cansada...
- Cansada? Tá cansada?
....
- Depois, em casa a gente vai conversar sobre seu cansaço.


No ônibus:

   Dois rapazes adolescentes conversando:

- Po, tô dividido, né? Duas gostosas! Tudo bem que uma é mais do que a outra, mas uma me diverte, me faz rir, a outra é só pra me satisfazer mesmo. Não sei, não sei.

- Na dúvida fica com as duas, ué? Por que ficar só com uma se pode ter as duas que se completam?

Os dois caem na risada.

- Pode crer. As duas me querem, eu quero as duas. Tá tudo certo.

- Elas só não podem descobrir, senão já era.

- Se descobrirem elas que se matem por mim. Tõ nem aí...


No shopping:

   Eu estava almoçando na bancada da praça de alimentação e, ao meu lado, tinha um casal e um menino com, sei lá, uns 9 anos. O garoto estava se recusando a comer e o pai falava algumas coisas em tom de ameaça pra ver se convencia o menino a terminar o prato. A mãe, percebendo que eu olhei, ficou com vergonha e tentou convencer o menino com um tom mais ameno. Na mesma hora, sem ter visto que eu tinha olhado, o pai esbravejou contra a mãe do menino:

- É por isso que ele é assim. É o tempo todo você passando a mão na cabeça desse garoto! Muleque minado! Se você não comer você não levanta daí, você tá escutando?

   O menino baixou a cabeça, olhou pro prato. Olhou pra mãe que, com um olhar de canto de olho pra ele fez um sinal de positivo acenando com a cabeça. Mais uma vez ele olhou pro prato, segurou o garfo e foi comendo aos poucos, até que comeu tudo.

   O pai meio que orgulhoso, não percebendo NADA que aconteceu ao seu redor, mandou um "muito que bem" pro menino. Todos levantaram e seguiram seu caminho.



   Eu não vou comentar  nada sobre essas três situações. Eu não vou escrever ou fomentar nenhuma opinião pessoal sobre nenhum desses casos. Não escrevi esse texto com esse intuito. Eu já tenho as minhas convicções e a ideia é que você leia e reflita, mas reflita pensando bem no dia de hoje e no que você fez durante todo o dia.

Força manas e parabéns pela luta de ser quem somos todos os dias. Não só no dia de hoje. Não só hoje.


Nana





sábado, 4 de janeiro de 2020

Sobre Roberta, juro!

Roberta é uma pessoa legal, no  geral. Tem bons amigos, leais a ela. Roberta também é leal.
Ela gosta de fazer muitas coisas com eles, mas também curte muito estar sozinha. A solidão, de certa forma, de uma forma até meio que melancólica, faz bem à Roberta.

"As pessoas tem muito a oferecer, mas pouco pra dar" é uma das suas frases preferidas. Ela gosta muito de criar frases de efeito e as repete como se fossem de um autor famoso, mas é ela própria quem cria essas frases nos seus momentos de devaneio. O problema é que ela morre de vergonha de dizer que as frases são dela. Na verdade ela morre de vergonha de tudo que cria. O julgamento das pessoas assusta muito Roberta e sentir-se avaliada causa um certo desespero. Menos do que antes, quando ela se limitava a viver por conta disso, mas ainda assusta. Não a limita mais, não a veta, mas a assusta. As pessoas são muito cruéis. Roberta também tem sua dose de crueldade. Todos temos, não é mesmo? Difícil é assumir isso. Mas ela assume. Nunca contou onde, de fato, dissipou seu veneno, mas nunca negou que o tenha feito. Roberta é muito sincera. De uma forma até suicida.

Roberta tem uma mania péssima de fazer coisas das quais não se orgulha. E quando chega em casa, ela e eu sabemos o quanto ela chora e se pune por isso. Nem ela sabe porque as faz, nem ela entende como se mete em algumas das suas confusões. O fato é que ela tem muita dificuldade em dizer não e acaba aceitando muitos absurdos. A negativa é uma opção também, muitas vezes a melhor, mas Roberta às vezes esquece disso. Ela quer aproveitar tudo, ela quer provar tudo, ela quer conhecer tudo e, por muitas vezes, cria teias perigosas que depois a fazem muito mal. Ela precisa parar! Nós duas sabemos disso. Ela até mais do que eu, que estou escrevendo sobre ela agora.

Eu deveria estar escrevendo sobre ela?

Bom, o trabalho é muito importante pra Roberta. Ela, de fato, ama sentir-se produtiva. Mas não queira que ela leve isso tão a sério. Eu não lembro de nada que ela tenha levado muito a sério assim. Preciso pensar mais sobre isso, porque se eu perguntar ela com toda a certeza não vai saber me responder também. Roberta não sabe pensar sobre pressão. Ela simplesmente trava! Fica com um olhar perdido, a boca seca, a cabeça a mil e já começando a pensar em outras coisas pra desfocar. Pressão, sem dúvida, é seu pior inimigo.

Sobre o amor? Ah, cada dia o amor tem uma definição diferente pra ela. O amor já foi palpável, o amor já foi uma energia, o amor já foi o sorriso de uma criança e hoje, pra ela, o amor é um dia de cada vez. O amor é uma construção. Um prédio que você vai levantando tijolo por tijolo com o cimento do respeito e a massa da tolerância. Paciência são os pilares. O amor, pra ela, já não se sustenta mais sozinho. E hoje ela ama tanta coisa, ela ama tantas pessoas, que o conceito de prédio não vem a toa. É pra caber muita gente mesmo, é pra caber todo mundo. Roberta é dessas pessoas que agrega. Ela junta e ama ver tudo junto, todo mundo no mesmo balde.

Talvez, por isso, ela viva sempre tão rodeada de gente. Deve ser por isso que a gente vê ela sorrindo quase que o tempo todo. Quase.

Talvez esse texto sobre ela esteja um tanto quanto óbvio mas, meus leitores, eu posso garantir que não. Porque nada é óbvio quando se trata de Roberta. A gente sempre acha que ela está indo em uma direção e na verdade, quase sempre, ela nos surpreende fazendo o contrário. E por que então, Joanna, escrever sobre ela?

Por que, Joanna?

Por que, Roberta?

A gente, na vida, costuma ter muitos segredos. Coisas que a gente não conta pra ninguém, ninguém MESMO! Roberta sabe que eu tenho esse blog. Ela sabe muitas coisas sobre mim e sabe que eu hoje precisava de um tempo só meu, de uma rede, de um colo, de um motivo pra ter certeza de que vai ficar tudo bem, de uma caneca de chocolate quente com biscoito e geleia de morango. Eu adoro morango.

Mas esse texto não é sobre mim, não é pra falar de mim. Esse texto nem é tão meu. É sobre Roberta, é pra Roberta, eu juro.

Nana.



domingo, 10 de novembro de 2019

Série Uber - Seu Wagner, o sonhador

   Eu estava indo pra uma festa na Feira de São Cristóvão que, vale dizer, fica há léguas da minha casa. Um calor, uma preguiça, um espírito de riqueza que me bate sempre nesses momentos me cegando completamente e me convencendo de "dane-se, pede um Uber". Pedi.

   Saí de casa já pingando de suor, com um baita mau humor, querendo voltar. Um Uber cancelou e eu já pensei "é um sinal", mas o segundo aceitou e estava já na minha rua, quase na minha porta. O carro bem humilde, um motorista com seus, talvez, 60 e pouquinhos anos que perguntou se eu queria que ligasse o ar, com a cidade aos seus 50°.

- Por favor, seu Wagner, to suando feito um porco!

- Porco não sua, minha filha.. eu sei porque já tive porco.

   E pronto, começamos aqui nosso texto.

   Seu Wagner era meu vizinho. Estava saindo de casa pra trabalhar de Uber naquele momento quando minha corrida apitou. Já havia sido casado e "não deu certo, minha filha". Morava com a esposa em Nova Iguaçu, separou e foi morar com a mãe na Taquara. Depois conheceu uma outra moça que sentenciou "com a sua mãe eu não moro. Quero morar na Zona Sul; é meu sonho"

- Exigente ela, né Seu Wagner?!

- Muito, minha filha. Você nem imagina. Mas, já que ela queria ser chique, fomos morar na Rocinha. Aquilo lá é uma cidade dentro de outra cidade!

- Sim, a Rocinha é muito grande!

- E caro de se viver. Eu morava numa quitinete só pra ela poder dizer que morava num lugar nobre. Pra ela a Rocinha era chique, ela não passava a vergonha de dizer que morava na Baixada pros parentes, mas eu vivia apertado. Montei um bar que não deu certo, uma confusão!

- E hoje você não mora mais lá. Ela mora na Taquara com você?

- Claro que não! Como eu não podia mais arcar com as despesas e nem ela sozinha, voltou a morar com a mãe na Baixada. Preferiu voltar pra casa da mãe do que tentar a vida comigo em outro lugar. Era a Zona Sul ou nada.

Ficou aquele silêncio que  fala muito, sabe? Aquele silêncio que grita. Que chega a arder os olhos...

- Então eu voltei a morar com a minha mãe, mas ela foi envelhecendo e meu pai partiu. O sonho dela era morar na Região dos Lagos, e assim ela o fez. Aí eu me desdobro entre lá e cá pra cuidar da casa dela aqui e dela lá. Tenho que ficar de olho se ela está indo no médico direitinho, ligo pras vizinhas pra vigiarem ela pra mim. Quando ela tem médico vou lá pra levar...

- Nossa, difícil né? Porque é longe

- Muito! Mas Deus ajuda...é o que ela sempre quis.

- Seu Wagner, e qual é o SEU sonho? - Perguntei pro homem que, até então, só tinha se preocupado em realizar o sonho de outras pessoas.

- MEU SONHO? - um grito seguido de, mais uma vez, aquele silêncio que geme - Meu sonho era ser piloto de helicóptero!

- Pois saiba que eu trabalho com aviação, numa empresa de offshore! O Sr. pode ser piloto, é só querer!

- Eu já tenho o PP (a licença para exercer a atividade de Piloto Privado), mas acabei desfocando do meu objetivo por causa de outras coisas, sabe? Hoje tô velho, não tenho mais tempo. Até tenho amigos pra me ajudar com as horas de voo, mas já to no fim da linha. Meu olho enche d'água só de falar dos helicópteros.

E encheu mesmo. Os olhos dele e os meus.

Cheguei ao meu destino. Já não suava mais, mas a vontade de chorar estava latente. Eu queria poder dizer um monte de coisa, mas tudo que saiu foi:

- Seu Wagner, o Senhor ainda está vivo! E enquanto tem vida, tem esperança. Realiza seu sonho porque o Senhor pode ser o que quiser! Não deixa passar mais tempo! Agora é a sua vez de ser feliz com o que o Sr. quer fazer. Por você e pra você. Corre e vai ser piloto!! Uma boa tarde, uma boa vida pro Sr.

Saí do carro, dei cinco estrelas pra ele, mas o que queria mesmo era lhe dar esperança, era dar pra ele a certeza de que ele ainda podia ser feliz realizando o que ele sempre sonhou pra si.

Hoje, escrevendo essa história estou repetindo as mesmas palavras que falei pra ele, mas pra mim. Pra você, meu leitor, e pra mim.

Nana.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Série Uber - Seu Gustavo, o Infeliz

To bastante sumida, eu sei. Trabalhando como nunca, estressada como sempre e cada dia mais sem entender o que tá acontecendo com a minha vida. Normal, eu acho.

As pessoas que eu conheço andam bem exaustas ultimamente. De uma maneira geral tá todo mundo sobrecarregado e encostando nos cantos da vida, pedindo a Deus por sombra e água fresca.

A impressão que dá é que a gente tá em pé, num sol escaldante faz meses; sem água.

Mas não vim falar de tristeza e nem ficar me lamentando. Apesar de estar precisando desse momento "botar tudo pra fora", hoje não.

Eu hoje saí do trabalho bem tarde e vim pra casa de uber. Na verdade peguei carona com uma amiga no uber dela e, depois, pedi um pra chamar de meu. E eu não sei quem são vocês no Uber, mas eu sou a pessoa que fala, conversa, debate, discute, canta, assovia. Ri, chora junto. Pede e dá conselhos. Juro que faço tudo isso. E hoje, conversando com o Paulo Roberto, sobre as nossas vastas experiências nesse transporte maravilhoso - ele como motorista e eu como passageira - nos deparamos com a ideia de um livro sobre isso. Por que não?? E, como meu projeto de livro já é outro e anda BEM atrasado, resolvi trazer esse brilhante absurdo aqui, para meu espacinho. Abriremos, a partir de hoje, uma série de histórias divertidas, e outras nem tanto, sobre essas experiências que começamos a adquirir a pouco tempo, mas que já fazem muito parte da nossa rotina, não é mesmo?

Eu não sei se é do interesse de vocês ler sobre isso, mas eu gosto muito das histórias das pessoas. Sou apaixonada por compartilhar experiências. Sendo assim, vamos a Série Uber.

Pra começar, vou trazer de volta uma história que gosto demais  e que não aconteceu num Uber, e sim num táxi há muitos anos atrás. Espero que você, meu amado leitor, também consiga sentir, através das minhas palavras, a mesma coisa que eu senti naquela viagem e depois dela.

Isso aconteceu há dez anos atrás, em 2009....

Ontem foi um dia daqueles! Sabe aqueles dias que parece que tudo está predestinado a dar errado? Então. Ontem.
O tempo foi pouco pra fazer as milhares de coisas que eu tinha pra fazer e nem metade, dessas coisas, foram feitas. Ô dia!

 Estava no Sindicato (a toa, porque a funcionária não foi para a homologação) e pedi um táxi para voltar ao trabalho. Aqui na empresa a gente usa aqueles táxis de companhia que paga-se com voucher, sabe? O táxi demorou tanto...tanto...tanto... As portas do Sindicato foram fechadas, os funcionários foram saindo um a um e eu ali sentada na escada esperando meu táxi.

 Mais raiva, menos paciência. 

Depois de um bom tempo, bota tempo nisso, meu táxi chegou e eu conheci umas das pessoas mais interessantes que eu já tive oportunidade de conhecer na vida. Os poucos minutos que desfrutei de sua companhia, mudaram o meu final de dia.

 O taxista era um homem simples e me tratou cordialmente assim que entrei no táxi. Me pediu desculpas pelo atraso e justificou-se alegando que o trânsito estava engarrafado demais. "Muita chuva, muito carro, muito trânsito", disse ele. 
- Nunca vi Outubro desse jeito! O Sr. pode, por favor, diminuir o ar condicionado pois estou com muito frio- Pedi com a mesma cordialidade com que estava sendo tratada. 
- Frio!? quem sente frio é pobre! Frio e fome. Pobre é que sente essas coisas. - Não aguentei. Danei a rir. 
- Então sou muito pobre, porque estou sentindo muito as duas coisas! 

Começamos a conversa.
Ele elogiou meu nome. Disse que achava um nome muito bonito e que tinha uma amiga linda que se chamava Joana. Eu, com o mesmo discurso de sempre, disse que achava nome de velho! 

- Não, minha filha. Quer ver um nome de mulher feia!? Nunca vi mulher bonita nenhuma com esse nome: Rita! - ele quase soletrava. 

Ao longo do caminho eu soube que Rita foi uma mulher apaixonada por ele. Uma mulher, segundo ele, feia como a fome, feito um "toco de amarrar jegue", baixa, horrível. Rita fez de tudo pra ficar com ele e, numa noite infeliz, bêbado, ele foi fisgado pela Rita. Amanheceu na casa dela, com a mulher horrenda dormindo do seu lado. Como se não bastasse, Rita ficou grávida! 

- E quem disse que o filho era meu mesmo? Não acreditei e nem registrei! 
- Mas a criança não teve culpa! 
- Eu sei. Eduquei ele, ajudei na criação, mas levar meu nome não. Hoje ele é advogado, tem 34 anos.

 Quando soube que Rita estava grávida, ele ficou desesperado, pois amava uma mulher que também estava grávida dele. Sônia. Ele tinha planos de construir uma vida a dois com Sônia. Fez planos de casar e ter um cantinho pros três: ele, Sônia e o bebê. Três dias depois de tudo certo, Sônia sumiu. Foi embora do Rio de Janeiro para a casa dos seus pais no Espírito Santo sem avisar nada à ninguém. 

- E o Sr., o que fez? 
- Eu fui atrás dela! 

Pegou suas poucas economias e foi ao Espírito Santo atrás da mulher amada. Não tinha seu endereço, telefone, absolutamente nada. Seguiu apenas com algumas coisas que ela havia dito para ele sobre a casa de seus pais, enquanto estavam juntos.
- E o Sr. achou ela? 
- Claro que achei! 

Ficou 15 dias na casa dos pais dela. Voltou ao Rio de Janeiro para preparar as coisas para buscar ela de volta. Quanto retornou ao Espírito Santo, alguns meses depois, Sônia havia ido embora de novo...
- De novo? 
- De novo! 
- E o Sr., o que fez? 
- Fui atrás dela de novo! 

Eu quase não acreditei, mas estava gostando muito da história! Encontrou Sônia de novo, mas dessa vez deram um fim na relação. 

- Ela era inconstante demais! 
- E o Sr, se casou? 
- Casei com uma mulher que eu nunca gostei! sempre odiei aquela mulher! 

Casou por pressão da família. Praticamente obrigaram ele a casar. Tentou adiar a cerimonia para tentar que esquecessem, mas ninguém esqueceu e ele se casou com ela. 

- E durou quanto tempo? 
- Dura até hoje! A gente não se suporta, mas não separo só de birra! Não me obrigaram a casar? Agora obrigo a permanecer casada. 

 Fez-se um longo silêncio no táxi e eu já estava quase chegando ao meu destino. Ri tanto durante todo o caminho e agora nada daquilo fazia muito sentido. 

A pergunta estava engasgada na minha garganta e eu a fiz. 

- O Sr. é feliz? 
- Não, minha filha. Sô não! Nunca fui. 
- Mas ela também não é feliz? 
- Não. Nem ela e nem eu. Uma pena, né? 
- Uma pena... 

Triste demais. 
Histórias alegres de um homem triste. História triste de um homem alegre, mas não feliz. 

Seu Gustavo. Taxista. 

Um senhor com, sabe Deus, quantos filhos e uma vida inteira para trás! Quilômetros dela, já percorridos. 

Estávamos em frente ao local onde eu iria descer. Estava atrasada, cansada, mas a raiva não estava mais ali. Não poderia estar! Agradeci a viagem e contei ao Seu Gustavo que pediria a Deus para que ele fosse feliz! 
Ele pegou mais um passageiro, um Senhor de terno e gravata que entrou assim que eu saí. Perguntei-me se aquele, talvez, era feliz... Jamais vou saber.

Eu não sei como concluir esse texto. Pensei tanta coisa sobre Seu Gustavo, Rita, Sônia e a esposa infeliz, e cheguei a tantas ocas conclusões que esse texto não terminaria se eu as escrevesse.

Eu só tenho certeza de uma coisa: A vida da gente passa... rápido como uma viagem de táxi!

 Nana



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Cravejado?

Eu estava muito triste.
Num desses dias que a gente olha pra si e pensa: eu realmente to muito triste.

Cumpri com minhas obrigações diárias. Trabalhei, sorri, vivi.

No fim do dia eu quis me presentear. Quis me dar alguma coisa que me custasse; que me mostrasse o quão importante eu sou pra eu mesma; entende? Pra mim faz todo sentido.
Entrei numa loja de jóias. Um anel? Um anel. Pra me provar o quão valiosa eu sou e o quanto eu mereço coisas que custam. Dinheiro, vontade, sacrifício. Custam. Eu custo.

- O que deseja, Senhora?
- Um anel. De ouro, com pedras. Um anel delicado, mas com pedras.
- Um solitário?

Óbvio que não! Se tem uma coisa que uma pessoa que se presenteia não quer é lembrar-se de sua solidão. Oras...

- Não, solitário não. Não quero uma pedra, quero muitas pedras. Porém delicado, não esquece.
- Qual o tamanho do seu dedo?

Qualquer tamanho, sabe? Um que caiba. Um que não escorregue, um que não exite, um que não queira ir embora. Meu número é o número de quem quer ficar, de quem não quer arrumar desculpas pra sair. Um sabão escorregadio, uma louça mal lavada. uma noite agitada. Nada disso pode ser motivo, porque quem quer caber, cabe, fica. Meu número é o que cabe!

- 13 ou 14.

- Senhora, temos esses modelos. Veja se é do seu agrado.

Todos eram. Nenhum cabia. Quer dizer, um meio que cabia.. ficava ali na dúvida se ia ou se ficava, mas não ia embora com facilidade. Apesar de também não ter certeza da permanência.

- ´É lindo, e tem muitas pedras! Essas pedras não vão cair?
- Não, senhora. É um anel cravejado.
- E não saem? Eu não vou tirar ele pra nada. Pra lavar louça, pra dormir, pra tomar banho, pra conhecer pessoas, pra sair com meus amigos, pra ir ali beber uma cerveja, ver um filme, uma peça de teatro...
- Senhora, são cravejados, e temos garantia.

Garantia...hahahahaha... que irônico não, Joanna?

- Não quero saber da garantia. Sempre caem quando termina o prazo. Sempre me machuco achando que ainda dá tempo de recorrer, e nunca dá, sabe? Eu vou levar esse.

- Vai levar no dedo?
- Claro que não, embrulha pra presente!

E, como num ritual, eu sai dali levando meu anel de ouro, cravejado, tamanho 14, com garantia. Garantia de nunca me deixar, de nunca perder as pedras, de brilhar e brilhar. E brilhar. E brilhar.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Filtro Solar da Joanna. Não o do Bial.

    Mais um ano que se inicia nessa nossa vida de meu Deus e mais um post que vos trago nesse nosso blog da Joanna.

   O final de 2018, pra mim, já foi um recomeço pra muitas coisas. Depois que passou meu aniversário, em Novembro, eu senti que um novo ciclo já estava começando, antes mesmo do ano, de fato, terminar. Comecei a já colocar em prática algumas coisas que eu vinha adiando: consultas, exames, pagamento de algumas coisas não essenciais, alimentação melhor, etc. E uma dessas resoluções que fui protelando foi dar uma atenção especial à minha pele.

   Dermatologista é sempre um médico que você deixa pra depois, né? Ninguém - pelo menos ninguém que eu conheça - tem urgência em ir ao dermato.  A gente marca e desmarca e remarca mil vezes quando tem algum problema aparente ou quando tá percebendo que o negócio está desandando. Meus caros, com 34 anos eu não preciso nem dizer porque marquei a consulta e, efetivamente, compareci. Não é mesmo? Prossigamos.

    Quando cheguei no consultório eu não sabia muito  bem o que dizer. Por vergonha e por total desconhecimento sobre o assunto -cuidado com a pele-. Eu sou muito, mas muito relapsa com essas coisas. E admito isso até com um pouco de culpa. Acho importante que a gente se cuide, mantenho meus exames em dia, mas no que diz respeito a proteção de pele, cuidados, hidratação... vixi... Comecei a cuidar do meu cabelo depois que tasquei aquele loirão platinado por uma questão de sobrevivência mesmo. Era cuidar deles ou ficar careca. Ou ficar com o cabelo parecido com os fios de uma boneca velha. E, por pura obrigação, me dediquei a isso e hoje conheço muitos produtos e tratamentos bem bacanas. Agora, pele? Dormir sem maquiagem? Protetor solar quando acorda? Nunca nem vi. Massss, entrei no consultório na cara, na coragem e nas rugas.

   A médica parecia uma Barbie; sério. A parede do consultório dela tinha umas formas geométricas que, quando eu olhava muito fixo pro rosto dela, a parede parecia se mexer. Eu meio que estava em transe com aquela pele, aquele olho claro, cabelo bem cuidado e aquela parede que mexia. Foi quando ela, então, fez a pergunta que eu tanto temia:

- Joanna, o que te trouxe aqui?

   Eu poderia responder mil coisas, duas mil. Mas eu não conseguia pensar em nada porque eu não tinha uma resposta. 

- Eu já tenho 34 anos; queria saber se está tudo bem com a minha pele.

   Dentro de mim eu mesma já me respondia "óbvio que não, linda", mas ela, com toda a sua paciência e elegância, me levou pra maca e pediu pra tirar minha maquiagem e bater umas fotos do meu rosto.
Fotos batidas, fomos ao computador olhar de perto e por dentro esse belo rostinho que Deus me deu. 
Diagnóstico dado, partimos para o tema tratamento. E é aqui que meu texto começa. Sim. Tudo que você leu até agora foi só introdução. Só lamento.

   Eu já fui três vezes em consultas com dermatologistas. A primeira vez foi por conta de muita caspa no cabelo, do nada. A mulher passou um shampoo tão caro que as caspas saíram sozinhas mesmo com pena de mim e da minha situação financeira. 
   Na segunda vez eu tive uma queloide no nariz, por conta de um piercing, que não saía por nada!! Até injeção no nariz eu tomei e a bendita queloide ali permanecia. Desisti do piercing e das injeções.
   Já na terceira vez a doutora passou um tratamento, que envolvia ácido que não me permitia pegar sol e protetor solar de uma marca carí$$ima, que no total somava uns R$500,00 em produtos. Óbvio que não comprei.

   Dessa vez, diferente das outras e de muitas outras situações na minha vida, eu decidi falar a verdade. Comecei com "olha Dra. se a Sra. me passar um tratamento caro, eu vou ser bem franca, eu não vou fazer...". E assim, dessa forma, ali naquele consultório nós iniciamos uma relação de confiança mútua, de cumplicidade. Eu romantizo muito as coisas, eu sei, mas foi exatamente isso que eu senti.

    Depois eu disse que com produtos que não me permitissem pegar sol eu também não me adaptaria e ela, prontamente, me ouviu e atendeu. Saí de lá com a receita na mão e o sentimento de dever cumprido e lealdade comigo mesma. Porque pela primeira vez, dentro daquele ambiente dermato, eu  não tive vergonha de me mostrar como eu sou. Não tive medo de dizer "se for caro, eu não compro". Eu não fui honesta só com ela. Eu fui honesta, principalmente, comigo em não me esconder atrás de um sorriso besta e engolir tudo que ela me dissesse pra depois sair dali e vomitar na portaria do prédio. Eu disse a verdade, ela a recebeu, entendeu e retribuiu.

   Depois disso eu pensei: Meu Deus, quantas e quantas vezes eu menti pras pessoas com medo de magoá-las, com medo de ser rejeitada, com medo de ser julgada, com tantos motivos que eu repetia pra que eu pudesse me justificar pra mim mesma. E no final das contas quem ficava mal, de fato, era eu! Porque quando você mente você carrega aquilo com você te consumindo aos poucos. A mentira aprisiona e te coloca na condição do "se". "E SE eu tivesse dito a verdade?". E se tem uma coisa que  eu detesto, meus caros, é viver sobre a sombra do "se...".

   A consulta foi só o primeiro passo pra uma nova maneira de lidar com as situações onde eu preciso, de certa forma, me expor. Foi um chute pra encarar de forma diferente as muitas vezes na vida em que eu vou precisar dizer: "então, se for pra ser assim, eu não quero". E quando a gente lida pela primeira vez com isso, mesmo que tarde, mesmo que num consultório de dermatologia, é inesquecível!

   Eu saí de lá com a consciência tão tranquila e uma vontade tão grande de levar aquele relacionamento a sério! Aprendi o valor do protetor solar todos os dias e da verdade nua e crua em todo o tempo. Ah, e com meus produtos e tratamento "mara" que custou apenas R$180,00!


                                                   
                                                                                                              Nana





sábado, 15 de setembro de 2018

Desabafo III

Eu queria escrever sobre tanta coisa
Eu queria falar tantas coisas pra tanta gente
Despejar todas as minhas frustrações, dizer o quanto fui magoada
O quanto tantos sonhos me foram tirados, o quanto me feriram e me fizeram sangrar
Apontar meu dedo cheio de enganos na cara de tanta gente e gritar bem alto sobre tudo aquilo que já tirou minha paz, meu sono, minha sanidade, meu amor próprio, minha auto estima, minha beleza, meu chão
Sentar cada um, numa cadeira fria e incômoda, amordaçando-lhes o direito de réplica, prendendo-lhes as mãos cheias de certezas, fazendo-os apenas ouvir e ver e sentir
E gritar e gritar e gritar e gritar
Eu preciso gritar
Preciso que ouçam tudo que está ecoando dentro de mim, há tempos
Isso não pode mais ficar apenas ressoando no meu peito, não é justo
Eu não quero mais ser complacente
Não preciso e não quero mais ser gentil
Eu quero que saibam que dói, que machuca, que fere
Que a gente urra de tanto sofrer, que o peito aperta, o ar some, as mãos esfriam, o coração gela
Eu preciso que sintam todo o vazio que isso tudo causa
Eu quero que se afoguem em todas as lágrimas que me fizeram derramar
Que carreguem uma parte dessa cruz que não é só minha
Me jogaram nas costas me fazendo percorrer por caminhos que eu  não escolhi
E agora sigo, pesada, cansada, desprotegida
Queria a chance de fazer com que cada um sentisse uma pontada de toda essa dor
Pelo menos que, ao sentir a fisgada, lembrassem-se de mim
Do meu nome
Do meu rosto
Do meu sorriso
Do meu choro

Mas nada disso vai acontecer. Eu sei que não.
Eu vou dormir e tudo permanecerá igual
Vazio e triste.
Com medo
E dor.

                                                                                                   Nana.

sábado, 18 de agosto de 2018

Cem!!

Olá meus amigos!!

Hoje abri o blog e vi que essa é a postagem de número cem!! Sim, senhoras e senhores, temos 99 coisas escritas por mim nesse espaço que chamo de meu e que vocês, de vem em sempre, visitam.

Sendo assim, decidi que nessa postagem centenária vou abrir meu coração pra vocês e contar sobre cem grandes (e nem tão grandes assim) sonhos que eu tenho. Coisas que ainda quero e acho que dá pra fazer e outras que eu sei que jamais conseguirei, mas já dizia a rainha dos baixinhos "tudo pode ser e se quiser será!".

Vamos lá? Vamos lá.

1 Ser surfista - mesmo com esse joelho podre;
2 Ter filh(x) surfista;
3 Fazer parte do Bonde das Maravilhas;
4 Ser passista
5 Desfilar num carro alegórico - sem aquelas roupas enormes aparecendo só os olhos;
6 Conhecer o Caribe;
7 Conhecer Fernando de Noronha;
8 Ter um chuveiro a gás;
9 Morar numa casa com quintal grande pro meu cachorro correr feito louco;
10 Ter uma rede nessa mesma casa;
11 E uma piscina - que pode ser de plástico
12 Ter um carro preto pra chamar de Falcão
13 Ir na Praça 2 e comprar TUDO que tenho vontade sem fazer conta;
14 Viver sem fazer conta;
15 Não precisar mais usar óculos;
16 Diminuir meu nariz;
17 alugar uma limousine com minhas amigas - preta, rosa é ranço;
18 Dar um tiro;
19 Ter alguém pra arear minhas panelas;
20 Parar de escutar de macho sem argumento que to muito nervosa;
21 Que meu cachorro pare de peidar podre - soltou um SINISTRO aqui agora;
22 Que Caetano faça uma música pra mim;
23 Botar o nome do meu filho de Caetano;
24 E ter a minha Maria Alice;
25 Ser uma velha muito divertida
26 Ter meu enterro cheio de amigos contando boas histórias sobre mim
27 Viver sempre boas histórias
28 Achar sempre graça das não tão boas assim
29 Chorar quando tiver vontade
30 Gargalhar quando tiver vontade
31 Ser magra pra sempre;
32 Ir ao show da Madonna;
33 Andar de skate;
35 Não cair andando de skate;
36 Ter um banheiro com banheira e velas aromáticas
37 Escrever um musical
38 Escrever um livro - mais de um, na verdade
39 Ser uma tia muito maravilhosa pro meu sobrinho
40 Ver minhas crianças crescendo em graça e conhecimento
41 Ser uma paquita
42 Conhecer a Xuxa
43 Compor uma música com a Marisa Monte
44 Ter mais de mil seguidores no Instagram
45 Ter um companheiro pra vida - que não seja um cachorro
46 Conhecer Pipa
47 Abraçar um macaco
48 Saber por onde anda o Philippe - meu primeiro namorado
49 Casar na praia
50 Receber alta da terapia
51 Viajar por todo o litoral do Brasil de carro
52 Ser mais regulada com meu dinheiro
53 Usar o shampoo certo pro meu tipo de cabelo;
54 Nunca ter insônia;
55 Dançar num pole dance;
56 Aprender dança do ventre;
57 Fazer boxe;
58 Voltar pro Pilates;
59 Ter sempre uma garrafa de vinho na geladeira;
60  Conhecer o Silvio Santos;
61 Participar da plateia do Domingo dele;
62 Ter o arquivo confidencial do Faustão;
63 Orar no muro das lamentações;
64 Ler a Biblia toda;
65 Ter alguém pra limpar minha casa;
66 Fazer uma hortinha;
67 Comer coisas mais saudáveis;
68 Tirar carteira;
69 Ter dinheiro pra investir;
70 Mandar algumas pessoas à merda;
71 Ter um quarto de hóspedes - esse ta quase quase;
72 Ter mais de cem capinhas de celular;
73 Ter mais de cem capinhas de celular sem ser julgada;
74 Fazer um cruzeiro - sem ser o do Roberto Carlos, peloamordedeus;
75 Ir no show do Fábio Junior;
76 Ser amiga da Carol Sampaio;
77 Ter fluência no inglês;
78 Ter fluência no francês - acho muito sexy;
79 Viajar com todas as despesas pagas;
80 Trabalhar sem ter horário;
81 Acordar quando o destino assim quiser e não o despertador;
82 Eliminar o despertador;
83 Comprar roupa de graça na Aquamar;
84 Cartão fidelidade Aquamar;
85 Ver neve;
86 Fazer um boneco de neve com nariz de cenoura;
87 Conhecer os Hanson;
88 Viajar com a Tatiana e a Lívia - se possível na mesma viagem;
89 Levar meus filhos pra brincar no Aterro
90 Levar meus filhos pra nadar no Arpoador à noite;
91 Fazer uma festa no Parque Lage;
92 Bater um papo cabeça com Chico Buarque;
93 Ir no show da Ivete;
94 Namorar o Cauã Reymond;
95 Não mais ser feita de idiota;
96  Morrer e ir pro céu;
97 Botar maiô e não me sentir um fiapo de macarrão;
98 Não ter mais rinite;
99 Não ter mais sinusite e bronquite;
100 A paz mundial


obs: As coisas não estão em ordem de importância nem em qualquer outra ordem. Apenas estão.




                                                                                                  Nana























quarta-feira, 27 de junho de 2018

"Porque o amor pode estar do seu lado..."

     Hoje entrei na van indo pro trabalho naquele desespero de sempre - atrasada, desesperada e dando bom dia sem olhar a quem.
     Como acontece quase todos os dias, não tinha lugar pra sentar e segui a viagem em pé. Eu detesto quando isso acontece, mas...
      Normalmente eu já entro na van de fone alto de propósito pra não escutar os assuntos, que na maioria das vezes não me interessa, mas hoje não deu tempo. Entrei sem o fone, em pé na van lotada e de mau humor, aquele matinal de praxe. Até que olhei pro lado...

     Eu queria, antes de continuar a história, fazer uma observação sobre olhar pros lados. Muitas vezes eu já vivi muitas situações que passariam despercebidas se eu não tivesse parado e prestado atenção no entorno. E isso envolve experiências boas e ruins.
     Já vi casais começando, relacionamentos terminando pelo whatsapp (sim, eu presto atenção na conversa das pessoas que sentam do meu lado no ônibus; desculpa, mas eu faço), já vi um homem sendo assassinado e eu vi quem foi que matou, embora eu tenha quase certeza até hoje de que muita gente não sabe que foi ele. E espero, em Deus, que eu esteja enganada e que aquele homem esteja preso.

     Enfim, meus amigos, olhem pros lados.

     O mundo acontece ao nosso redor e a gente precisa prestar atenção. Depois que celular passou a ter internet, câmera e tudo mais, a gente só anda enfiado com a cabeça olhando pra baixo e esquece que tem vida bem do nosso lado. A realidade das ruas é muito mais real do que a do Instagram. Acreditem em mim, eu não mentiria pra você. Não aqui, não nesse texto.

     Observações feitas, continuemos a história.

     Olhando pro lado, encontrei um casal sentado nos últimos bancos da van, lá no fundo. Ela tinha mais ou menos (na minha cabeça, né?) uns 65 anos e ele uns 68, sei lá. Eu não sei se os dois compartilharam toda uma vida ou se estão juntos a pouco tempo. Eu não sei nada sobre eles, apenas o que venho vos contar aqui.
     Os dois estavam de braços dados. Ela toda sentada na postura, empinada, com as unhas feitas, os cabelos arrumados num coque desorganizado de propósito, um batom meio vinho, porém discreto e a bolsa no colo. Ele estava levemente inclinado pro lado dela, de regata, bermuda jeans, chinelo, o pouco cabelo não tinha visto pente com certeza.

     Ela falava, muito. Falou, falou e falou. Sobre uma neta, sobre uma mulher (que eu acho que era uma amiga mais jovem dela) que tinha 35 anos, dois filhos e uma loja de banho e tosa. O ex marido dava R$450,00 de pensão pros dois filhos enquanto a mulher se matava de trabalhar pra sustentar as crianças que, segundo ela, comiam bem, bebiam bem e precisavam se vestir.

     - Injusto gente! Traste! Quem vive hoje com R$450,00? Ainda mais com duas crianças!

     Depois ela falou sobre uma outra mulher (que eu também acho que é amiga) que estava trabalhando numa casa de família onde todos os dias precisava ter suco de frutas naturais e queijos na mesa.

     Nesse momento eu me desliguei um pouco da conversa pra pensar sobre isso. Como que pode realidades tão diferentes, meu Deus? E nesse caso eu nem sei, honestamente, se é um problema cultural, social ou de falta de informação. Por que é motivo de espanto suco de frutas naturais e queijo? Fica a reflexão. Talvez um dia eu escreva sobre isso. Talvez.

     Depois de terminar esse assunto ela comentou que hoje teria jogo do Brasil e que isso prejudicaria os seus afazeres.

     - Temos que fazer tudo bem rápido, porque uma hora eu tenho certeza que fecha tudo!

     Enquanto ela falava sobre todas essas coisas e mais algumas que eu não consegui prestar atenção, ele ouvia. Aquele homem ouvia a tudo. Enquanto ela tagarelava e concluía sozinha seus raciocínios, ele olhava pra ela e apenas escutava. Às vezes ele balançava levemente a cabeça em concordância, outras vezes franzia o cenho, talvez em desacordo.

     Até que, em determinado momento da conversa, ela olhou pra ele com tanto afeto, começou a fazer aquela vozinha de criança dizendo "mas você é o amor da minha vida! Você é meu sorriso, minha coisa gostosa de viver" e aquele homem que só ouvia, sorriu com a boca, com os olhos, com as mãos. E eles se olharam de um jeito que há muito tempo eu não vejo ninguém se olhar. Sério. E tocaram no rosto um do outro enquanto se olhavam. Ele balbuciou alguma coisa bem perto dela, ela sorriu em retribuição e eu não consegui mais prestar atenção neles dois porque meu telefone tocou e foi uma péssima hora pra tocar, porque eu ficaria olhando pros dois até agora, se pudesse.

     Bom, é isso e é sobre isso. Uma mulher sendo mulher, falando pelos cotovelos coisas importantes pra ela. Um homem ouvindo, calado, mas não menos interessado. Uma manifestação de afeto, uma retribuição. O amor. É sobre o amor. E sobre olhar pros lados e ouvir.


                                                                                  Nana.










sábado, 9 de junho de 2018

Poucas Fridas e bem menos Diegos


     Eu sempre tive uma admiração muito grande pela figura da Frida Kahlo e nunca soube exatamente porquê. Talvez tenha sido algum tipo de identificação subconsciente, acredito muito nisso.
Eu já tinha lido alguns de seus versos, já tinha admirado algumas de suas pinturas, conhecia um pouco de sua história e hoje percebi que muito pouco, senhores.

     Hoje vi o filme da vida de Frida Kahlo que está disponível no Netflix e, meus caros, eu não consegui nem sorrir e nem chorar durante todo o filme. Era como se eu estivesse ali, de alguma forma que não sei explicar. Era como se eu conseguisse sentir a dor daquela mulher desde o maldito acidente no ônibus. Eu já passei por muita coisa na minha vida, muita MESMO, acho que muitos de vocês não conseguem nem imaginar. E que assim permaneça. Mas eu não sei se suportaria 30% da dor que essa mulher suportou. Dor física, dor de alma, dor de uma história que poderia ter sido totalmente diferente se ela não tivesse pego aquele ônibus; mas ela pegou. E tudo o mais veio e ela resistiu. Só por isso eu já teria muitos motivos para admirá-la. Mas ela conheceu Diego e, bem, eu gostaria muito de falar sobre Diego nesse texto.

     Eu conhecia fragmentos de Diego Rivera, até hoje. Eu odiava Diego, até hoje.

     Não é que passei a amá-lo com esse filme, não, longe disso. Diego está longe de despertar algum tipo de admiração da minha parte, pelo menos. Mas é que eu sempre soube de Diego pelos outros, hoje eu conheci Diego pelos olhos dela. E muita coisa mudou.

     Diego nunca mentiu, Diego nunca prometeu algo que não poderia dar. Aliás, minto. Diego não cumpriu sua promessa de ser leal quando se relacionou com a irmã dela. Mas Diego também sempre deixou claro que não seria fiel. Ele queria ela por perto, ele precisava dela, do amor dela, dos conselhos dela, da presença dela, mas sempre deixou nítido o quanto precisava do sexo de outras mulheres.

     Talvez o erro da Frida, como o meu, como o de tantas outras que conheço, tenha sido achar que com ela seria diferente. Meu Deus, até quando nós vamos achar que somos mais especiais que as outras? Essa é uma ideia tão estúpida e idiota e que acontece com tantas e tantas de nós que já era pra termos aprendido alguma coisa com toda a desgraça que isso causa! Já passou do tempo de entendermos que a que passou antes de nós não é uma inimiga, não é a razão de todos os males, e a que vem depois de nós não é uma ameaça, não é o símbolo de derrota e pequenez nossa. São apenas outras que foram, outras que virão. Frida entendeu isso depois que casou com Diego. Eu estou entendendo isso agora.

     Kahlo sentiu dor de amor, surtou, permitiu-se surtar. Foi embora, voltou. Declarou seu amor, se arrependeu, mas declarou de novo. Deu espaço, se aproximou. Disse a verdade, o tempo todo. Pra ela, pro mundo e pra Diego.

     E Diego, senhores, de um jeito só dele, amava aquela mulher. Ele nunca a limitou, ele nunca a diminuiu. Diego Rivera foi um dos maiores artistas de sua época, mas sempre disse "ela pinta muito melhor do que eu". Diego deixava Frida ser quem ela era. E isso implica em tanta, mas tanta coisa!

     Eu estou aqui pensando que Diego, talvez, nem tivesse muita noção do que fazia por ela. Eu acho que ele fazia por amor (que, sinceramente, acredito que ele só percebeu na velhice) mas estava ali. E sabe qual a diferença de Diego pra tantos homens que conheço? Diego sempre estava ali.

     Frida morreu precocemente, mas Diego estava lá até o fim. Ela já não podia mais andar, ela já não podia mais produzir como antes, ela já não tinha mais as mesmas cores, mas Diego esteve ali até o fim. Talvez fosse dessa lealdade a que ele se referira. Talvez fosse esse o amor que ela precisasse e que foi tão incompreendido, inclusive por mim.

     Eu já passei da fase de acreditar em amores perfeitos. Já me dei conta de que histórias de amor vão muito além do "felizes para sempre" e ver hoje, constatar uma história como a de Frida e Diego, desconstruiu muitas coisas dentro de mim, mais algumas delas. E eu me dei conta de que temos poucos Diegos nesse mundo, mas também não temos muitas Fridas. O título inicial desse texto dizia que somos todas Fridas, mas não somos não. Poucas mulheres seriam tão grandes, pensariam tão grande e seriam tão profundas. Pouquíssimas.

     Eu não sei se alguém vai ler esse texto, mas eu precisava digerir tudo que acabei de ver e registrar pra não esquecer. Já vi muitos filmes com histórias de mulheres reais que sofreram pra cacete e algumas até morreram por conta desse amor. Elis, Amy e algumas outras que não to lembrando agora. Mas a diferença, meus caros, é que eles não estavam lá até o fim. Eles não ficaram, mas Diego estava. Diego estava lá! E isso faz toda a diferença. Fez pra Frida, e pra mim.

Nana